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Quando Sua Competência Lhe Consome

  • tecpr4
  • 20 de mar.
  • 3 min de leitura

Hoje recebi um vídeo de uma filha de santo que me fez refletir…


O vídeo falava sobre algo que muita gente admira, mas quase ninguém tem maturidade para compreender: existem pessoas que fazem parecer fácil. E o problema não está na habilidade dessas pessoas, mas na forma como o mundo se acostuma com isso.


Quando alguém faz parecer fácil, cria-se uma distorção perigosa. Aos poucos, o esforço deixa de ser percebido, a entrega deixa de ser valorizada e o desgaste deixa de ser considerado. O que antes era dedicação passa a ser tratado como obrigação. O que era diferencial vira padrão. E o que exigia energia passa a ser visto como algo natural, quase automático.


A partir desse momento, a lógica muda completamente. Ninguém pergunta se está cansado. Ninguém oferece ajuda. Ninguém reduz a carga. E não é por falta de percepção. É por conveniência. Enquanto aquela pessoa continua entregando, sustentando e resolvendo, todos ao redor seguem funcionando sem precisar se reorganizar, sem precisar assumir responsabilidade e, principalmente, sem precisar sair da zona de conforto.


É assim que nasce a vítima da própria competência.


Não de forma repentina, mas silenciosa e progressiva. A pessoa começa sendo reconhecida pela sua capacidade, depois passa a ser acionada por isso, até que, em algum momento, deixa de ser vista como alguém que ajuda e passa a ser vista como alguém que é responsável por tudo. A linha entre contribuição e sobrecarga simplesmente desaparece.


E o mais perverso desse processo é que ele não vem acompanhado de mais suporte, mais cuidado ou mais compreensão. Vem acompanhado de mais cobrança. Porque quem sempre entregou, passa a ser cobrado como se não tivesse o direito de oscilar. Como se não pudesse se cansar. Como se não pudesse falhar. Como se não pudesse simplesmente ser humano.


Quando essa pessoa começa a dar sinais de desgaste, o discurso muda rapidamente. Em vez de reflexão coletiva, surge a responsabilização individual. Dizem que ela precisa se organizar melhor, que está assumindo mais do que deveria, que precisa aprender a dizer não. Mas ignoram completamente que esse padrão foi construído, reforçado e, muitas vezes, explorado por todos ao redor.


Existe uma conveniência silenciosa em manter alguém forte o tempo todo. É confortável olhar para alguém que resolve tudo e acreditar que aquilo faz parte da natureza dela. É confortável admirar sem se comprometer. É confortável reconhecer sem dividir o peso.


Chamar alguém de forte, muitas vezes, é apenas uma forma sofisticada de continuar deixando tudo nas costas dessa pessoa.


E isso se torna ainda mais sensível dentro da espiritualidade. Porque, nesse ambiente, a sobrecarga ganha justificativas bonitas. Fala-se em missão, em propósito, em preparo espiritual. Cria-se uma narrativa onde a capacidade de suportar tudo é interpretada como evolução, quando, na verdade, muitas vezes é apenas excesso acumulado.


O médium firme vira apoio constante. O dirigente se torna referência inquestionável. Aquele que sustenta passa a ser sustentação para todos, mas raramente encontra quem o sustente. E, pouco a pouco, vai se criando um cenário onde quem mais entrega é quem menos recebe cuidado.


O ponto mais difícil de encarar é que esse ciclo não se mantém apenas pelo ambiente externo. Muitas dessas pessoas também participam ativamente dessa construção. Elas se acostumam a ser solução. Passam a medir seu valor pela capacidade de aguentar. Desenvolvem dificuldade em demonstrar fragilidade. E, sem perceber, começam a alimentar o próprio esgotamento.


Confundem responsabilidade com autoabandono. Confundem força com resistência infinita. Confundem entrega com ausência de limite.


E seguem, sustentando, resolvendo, segurando, até que algo dentro delas começa a falhar. Pode ser o corpo, pode ser a mente, pode ser a fé. Mas em algum momento, a conta chega. E quando chega, normalmente encontra uma estrutura inteira dependente de alguém que já não tem mais de onde tirar.


Esse vídeo, no fundo, não fala sobre força. Fala sobre excesso normalizado. Fala sobre um padrão que é admirado na superfície, mas insustentável na essência.


E talvez a reflexão mais incômoda seja essa: quem faz parecer fácil quase sempre está pagando um preço alto demais. E quem se acostuma com isso, na maioria das vezes, não está disposto a dividir esse custo.


Por isso, é preciso coragem para romper esse ciclo. Coragem para reconhecer limites. Coragem para sair do papel de quem aguenta tudo. Coragem para parar de romantizar a própria exaustão.


E, principalmente, é preciso consciência coletiva para parar de se beneficiar da força dos outros sem assumir nenhuma parte do peso.


Porque no final, a verdade é simples, direta e difícil de ignorar: ninguém nasceu para ser suporte de tudo. E quando alguém está sendo, existe um desequilíbrio que precisa ser encarado, não admirado.


Texto: Michel Dourado - Dirigente Espiritual - CECPR

Data: 20/03/2026

 
 
 

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