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Mensagem de Final de Ano Aos Médiuns e Assistentes

  • tecpr4
  • 19 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

(Esta carta foi lida na abertura da Gira de Encerramento do Ano de 2025 para os Médiuns e Assistentes do CECPR)


Meus irmãos e minhas irmãs,


Chegamos à última gira do ano. E se hoje eu escolhi falar em forma de carta, é porque há palavras que não cabem mais apenas no ritual, no ponto cantado ou no silêncio do congá.


Hoje eu falo de coração aberto. Mas não de coração ingênuo.


Mais um ano se encerra. Um ano de aprendizados, quedas e levantes. Um ano de silêncios profundos, de lágrimas escondidas, de sorrisos sinceros e de desafios que ninguém viu, mas que foram sentidos no fundo da alma.


Este também foi um ano de perdas. Perdas que doeram. Perdas que deixaram cadeiras vazias. Perdas que ainda apertam o peito quando a memória insiste em voltar.


Hoje lembramos daqueles que não estão mais aqui fisicamente. Alguns partiram cedo demais. Outros cumpriram seu tempo. Mas todos deixaram marcas. Na casa, na gira, em nós.


Se em algum momento deste ano você viveu desespero, saiba que ele não passou despercebido pela espiritualidade. Houve dias em que a fé foi testada no limite. Dias em que levantar da cama já era um ato de coragem. Dias em que só quem passou sabe o quanto doeu continuar.


Este também foi um ano de medos. Medo de errar. Medo de falhar. Medo de não dar conta. Medo de decepcionar. Medo de perder pessoas, perder chão, perder sentido. Medos que nem sempre foram ditos em voz alta, mas que caminharam conosco em silêncio.


E mesmo com medo, seguimos.


Este também foi um ano de erros e de acertos. Erramos em palavras, em atitudes, em julgamentos. Acertamos quando tivemos coragem de reconhecer, de ajustar, de aprender. Porque evolução espiritual não nasce da perfeição, nasce da consciência.


Este também foi um ano de decepções. De expectativas quebradas. De atitudes que feriram. De posturas que não condisseram com o que esta casa ensina. De pessoas que não corresponderam ao que disseram estar prontas para viver. E reconhecer isso não é falta de amor. É compromisso com a verdade.


Ainda assim, você continuou. E isso importa.


Aos médiuns desta casa, eu digo. Vocês não chegaram até aqui por acaso. Não foi sorte. Não foi mérito isolado. Foi chamado, foi insistência do plano espiritual, foi compromisso assumido antes mesmo de vocês entenderem o tamanho disso.


Mas eu preciso ser claro.


Mediunidade não é palco. Não é status. Não é lugar de vaidade espiritual disfarçada de humildade.


Mediunidade é renúncia. É disciplina quando ninguém está olhando. É caráter quando não há cobrança. É coerência entre o que se incorpora aqui e o que se vive lá fora.


Não adianta bater cabeça no congá se a cabeça não se curva na vida. Não adianta pedir força aos guias se as atitudes continuam fracas. Não adianta falar de caridade se o coração ainda escolhe quem merece respeito.


Aos assistentes, eu digo com a mesma verdade.


Vocês não estão aqui apenas para receber. Estão para aprender, para sustentar, para respeitar, para compreender que a Umbanda não é serviço rápido, não é solução mágica, não é balcão de pedidos.


Esta casa se mantém de pé porque existe fé. Mas também porque existe responsabilidade espiritual.


Nada do que acontece aqui é brincadeira. Nada é teatro. Nada é improviso.


Cada gira é trabalho. Cada orientação é cuidado. Cada silêncio das entidades também ensina.


E aqui eu falo também como dirigente espiritual desta casa.


Se em algum momento minhas palavras foram duras, se houve puxões de orelha, correções firmes ou falas que causaram desconforto, saibam. Nunca foi por vaidade. Nunca foi por impaciência. Nunca foi por falta de amor.


Pelo contrário.


Há um cuidado constante em não decepcionar, em sustentar, em acolher, mesmo nos momentos em que eu também me senti sobrecarregado, cansado ou enfraquecido. Há dias em que o corpo pesa, a mente cansa e o coração sente. Ainda assim, a missão não permite recuar.


É justamente através desta missão que eu me recarrego. É servindo, corrigindo, sustentando e protegendo a casa que eu encontro força. Cada fala minha, cada correção, cada limite colocado, sempre foi e sempre será por um bem maior. Pelo equilíbrio da casa. Pela segurança espiritual. Pela verdade da Umbanda que escolhemos viver aqui.


E se falamos de verdade, precisamos falar do perdão.


Porque o perdão é um dom. Não um favor. Não uma fraqueza. Um dom espiritual.


Perdoar não é esquecer. Não é permitir o erro continuar. Não é negar a dor. Perdoar é libertar. É escolher não carregar pesos que adoecem a alma.


Assim como a compaixão. Que não é passar a mão na cabeça, mas enxergar o outro como alguém em processo.


Assim como o amor. Não o amor romântico, bonito de discurso, mas o amor que educa, que corrige, que sustenta e que permanece.


Assim como a empatia. Que nos lembra que cada um aqui carrega batalhas que nem sempre são visíveis.


Sem perdão, não há cura.

Sem compaixão, não há crescimento.

Sem amor, não há Umbanda.

Sem empatia, não há casa espiritual.


E hoje, além das perdas, nós também celebramos.


Celebramos aqueles que estão crescendo. Os que estão aprendendo a cair e levantar com mais consciência. Os que estão se lapidando, mesmo quando dói. Os que estão entendendo que evolução espiritual não é pressa, é constância.


Há orgulho, sim. Orgulho silencioso. Orgulho maduro. Orgulho de ver médiuns evoluindo, de ver assistentes amadurecendo, de ver a casa seguindo, mesmo quando o caminho foi pesado.


Também olhamos para aqueles que caminham entre nós com olhos puros.


As crianças que convivem nesta casa, que observam, que sentem, que aprendem muito mais pelo exemplo do que pelas palavras.


Que nunca percamos a responsabilidade de sermos referência. Porque a inocência delas é um espelho, e a espiritualidade observa como tratamos quem ainda confia sem reservas.


E também falamos de esperança.


Esperança daqueles que ainda virão. Dos que ainda vão cruzar este chão. Dos que ainda serão acolhidos, orientados, amparados. Dos que ainda encontrarão aqui um ponto de luz em meio à própria escuridão.


A virada de ano nos entrega algo precioso.


Um livro novo. Aberto. Com páginas em branco.


Nenhuma linha escrita. Nenhum erro registrado. Nenhuma vitória ainda contada.


Esse livro será preenchido pelas escolhas, pelas atitudes, pela coerência entre o que se fala aqui e o que se vive todos os dias.


Se em algum momento deste ano você pensou em desistir, saiba. Isso também faz parte do processo.


Mas desistir da Umbanda é fácil. Difícil é permanecer. Difícil é se transformar.


Que este encerramento de ano não seja apenas um rito de passagem no calendário. Que seja um marco interno.


Que cada médium reflita se está sendo ponte ou obstáculo. Que cada assistente reflita se está vindo com fé ou apenas com expectativa.


A espiritualidade não precisa de quantidade. Precisa de verdade.


Entramos em um novo ciclo. E ciclo novo não combina com velhos comportamentos.


Também é tempo de olhar para os objetivos que não foram alcançados. Os planos que ficaram pelo caminho. As metas que não se cumpriram. Os sonhos adiados.


Isso não é fracasso. É aprendizado.


Há uma frase simples, de um filme conhecido, que carrega uma sabedoria profunda. Quando tudo parece difícil, quando o medo aperta, quando o cansaço chega, a orientação é clara. Continue a nadar.


Que os guias continuem nos sustentando. Mas que nós também façamos a nossa parte, com humildade, com respeito, com disciplina, com amor real.


Não aquele amor bonito de discurso. Mas o amor difícil. O amor que corrige. O amor que segura. O amor que exige crescimento.


Se você está aqui, é porque ainda há trabalho para você. Mas trabalho espiritual não aceita metade do coração.


Que a última gira do ano nos encontre mais conscientes do que quando chegamos. E que o próximo ano nos encontre menos cheios de pedidos e mais cheios de propósito.


E deixo aqui um convite sincero para o ano que vai chegar. Que ele nos encontre presentes, comprometidos e inteiros. Que ele nos encontre com mais verdade do que expectativa, mais ação do que promessa, mais vivência do que discurso.


Muitos imaginavam, e talvez até esperassem, que esta última gira fosse na praia. E isso seria bonito, sim. Mas encerrar nossos trabalhos aqui, no terreiro, onde tudo acontece, onde caímos e levantamos, onde aprendemos, erramos, acertamos e crescemos, é mágico. É forte. É da mesma intensidade, ou talvez até maior. Porque é aqui que a Umbanda se manifesta em sua essência, sem cenário, sem distração, apenas verdade, fé e trabalho.


Com fé. Com responsabilidade. Com verdade.


Sempre sob a luz dos Orixás, dos Guias e dos Ancestrais que nos sustentam.


Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações, prosperidade, saúde e boas energias a todos.


Texto: Michel Dourado - Dirigente Espiritual - CECPR

Data: 18/12/2025

 
 
 

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